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Em 2009, a WWE e Nigel McGuinness, um dos grandes nomes da Ring of Honor, chegaram a um acordo para a contratação do antigo campeão das federações independentes. O seu ingresso na empresa estaria condicionado ao cumprimento das datas independentes já marcadas de Nigel e aos exames médicos aos quais este seria submetido. Naquela época, a internet explodiu em felicidade, afinal, sempre foi um desejo dos fãs ver McGuiness e seu parceiro de ROH, Bryan Danielson, juntos na programação da WWE.
Algumas semanas se passaram e nenhum acordo foi oficialmente firmado, o que gerou desconfiança por parte do público. Finalmente, foi anunciado que o contrato de Nigel com a maior federação de prowrestling do mundo não seria finalizado. O motivo era uma falha em um dos testes feitos pela empresa que impedia Nigel de trabalhar ali. O erro nunca foi divulgado, por uma política de privacidade mantida pela WWE, mas muitas especulações surgiram à altura.
Como a liberação de Nigel pela Ring of Honor já havia sido feita, a Total Nonstop Action aproveitou a situação para realizar a contratação do britânico. Sem ter uma política médica forte (o que já gerou diversos problemas para a federação), a TNA aceitou as falhas de McGuinness e o promoveu como uma das grandes contratações do ano. Tanto é verdade que este estreou, sob a alcunha de Desmond Wolfe, em uma storyline contra Kurt Angle, o grande nome da federação.
O tempo foi passando e Wolfe, apesar do grande impulso inicial, acabou perdendo força na programação. Nesse período, AJ Styles se tornou a figura principal da empresa, com o apoio de Ric Flair, que acabara de estrear. Desmond chegou até a participar de uma facção de Flair, escancaradamente inspirada na Four Housemen, chamada Fortune. Mesmo assim, o momentum de Wolfe parecia estar perdido e ele acabou saindo da stable para formar a London Brawling com Brutus Magnus.
O grande ponto está aí. Pouco tempo depois de formar a nova dupla, Nigel acabou saindo da programação e passando quase um ano sem aparecer na TNA. Durante esse período, vários fãs perguntavam o que estava acontecendo com o ex-campeão mundial da Ring of Honor, e a empresa sempre deixou claro que eram questões médicas pessoais. Hulk Hogan chegou a comentar:
A situação de Desmond é totalmente além do controle da TNA. A bola está totalmente nas mãos dele.
Em maio de 2011, Wolfe fez seu retorno no Xplosion, um programa promovido pela TNA fora do continente americano. Sua participação, no entanto, durou pouco tempo e ele foi demitido pela empresa. Três meses depois, a ROH anunciou que McGuiness retornaria à empresa no papel de color commentator para o novo programa da empresa, no Sinclair Broadcasting Group. Logo após chegar, Nigel se envolveu em um segmento no qual defendia Eddie Edwards da House of Truth, embora o angle não tenha se tornado um confronto de fato.
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Em suma, foram 14 meses fora dos ringues, em uma ausência ccompletamente inexplicada, que alimentou diversos boatos. Além disso, pelo passado de Nigel com o problema médico na WWE e até o histórico de lesões que sustentava durante sua primeira passagem na ROH, a carreira do britânico parecia acabada. Todavia, nas últimas semanas, uma surpresa apareceu a todos: algumas federações independentes começaram a lançar anúncios de combates de McGuinness, no que está sendo chamado de “Nigel McGuinness Retirement Tour”.
O que deveria ser uma alegria pelo fato de que Nigel está voltando aos ringues se transforma em um misto de desconfiança e de medo. O que havia de errado em seu exame na WWE que a TNA ignorou? Por que McGuinness passou tanto tempo fora dos ringues? O que o faz poder lutar uma série de combates com plena segurança e o impede de continuar a carreira, ainda mais em um momento de envolvimento com a House of Truth na programação da Ring of Honor?
A postura de McGuiness em relação a essa situação é de resguardo à privacidade que se fez característica durante sua carreira. E, nesse tipo de caso, não dá para criticar o posicionamento do lutador. Cada profissional tem sua maneira de encarar os problemas médicos ou pessoais e, no fim das contas, não há uma atitude indiscutivelmente correta.
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Abrir suas questões médicas para o mundo, por exemplo, foi uma decisão tomada por “Dr. Death” Steve Williams, morto há dois anos. Sua batalha contra o câncer chegou a ser narrada em um livro, além de diversos eventos que foram feitos para ajudá-lo nessa questão.
Quem também optou por abrir o jogo sobre seus problemas pessoais foi Scott Hall, um dos maiores nomes da história do wrestling. Apesar de todo o seu talento, é sabido que Hall estragou suas oportunidades pelos vícios e gastos exacerbados. Recentemente, a ESPN produziu um programa que falava sobre as dificuldades enfrentadas pela família de Scott. A produção chocou muitas pessoas, afinal, há amigos do Bad Guy que admitem não ter mais esperanças sobre ele.
No caminho contrário, podemos falar de Sting. Por muito tempo, The Icon foi considerado um dos nomes mais sensatos da WCW e parecia não ter seu nome envolvido com grandes problemas. Contudo, em 2004, o lutador resolveu mostrar em um documentário sobre sua carreira, chamado Moment of Truth, que tudo não passava de uma coberta à sua real situação. Sting teve problemas com álcool e com remédios usados durante sua estadia na WCW. Passou por tudo calado.
Quem se esforça para esconder seus problemas, também, é Ric Flair. Dono de um dos maiores legados da história do prowrestling, Flair é também uma das maiores vítimas da modalidade. Por mais que tente evitar tocar no assunto, suas dívidas vieram à tona recentemente, em uma reportagem feita pela ESPN. Pelo que foi apurado pela gigante norte-americana, Ric passa por um colapso mental e financeiro, o qual não quer admitir.
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Como dito anteriormente, a decisão de informar a todos o que está acontecendo é única e exclusiva de Nigel McGuiness. Há exemplos, como os que foram mostrados, tanto de pessoas que resolvem mostrar o que passam como de pessoas que resguardam (ou pelo menos tentam) sua privacidade. Entretanto, Nigel precisará lidar com duas situações preocupantes.
Em primeiro lugar, McGuinness vai precisar conviver, enquanto manter suas questões médicas em segredo, com os boatos criados na imprensa estadunidense. Sites especializados em prowrestling já divulgaram notas falando desde Hepatite C até a própria SIDA como causas para que a lenda independente tenha se afastado dos ringues. Em ambos os casos, são doenças graves e que, em caso de retorno aos ringues, podem colocar em risco a vida dos adversários de McGuinness.
É justamente esse ponto, então, que cai como gancho imediato, a segunda preocupação de Nigel. Será mesmo que ele está preparado para voltar aos ringues? Se estiver fisicamente preparado, o britânico ainda terá que assumir a responsabilidade de levar riscos sérios, dependendo do mal que sofrer, a quem pisar no ringue com ele.
Pelo que tem sido publicado, o retorno de McGuiness acontecerá em pequenas federações. Estas, na maioria dos casos, não pensam muito na segurança dos atletas para marcarem um evento. Basta a garantia de um público mediano (algo que o nome do britânico pode superar facilmente) e eles vão aceitar quaisquer circunstâncias para garantir o funcionamento da federação por mais umt empo. Portanto, dar segurança para os seus adversários é uma decisão que parte muito mais de Nigel do que das federações em que ele vai lutar.
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Se tudo correr bem e na maior segurança, serei um dos primeiros a comemorar o retorno, mesmo que seja para uma última tourneé, de Nigel McGuinness aos ringues das federações independentes. Porém, sem notícias, sem segurança, sem conhecimento algum sobre a real situação de Nigel, eu não consigo ter alegria em vê-lo retornar. Não, ao menos, pelo olhar de alguém que preza pela saúde das pessoas, muito em função de estar envolvido na área.
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Coluna compartilhada com o Wrestlemaníacos.
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